06/11/2017 - Por: Folha de São Paulo

Infográfico / Folha

Metade dos profissionais de saúde que se acidentam com materiais biológicos (sangue e outros fluidos orgânicos) abandona ou ignora o acompanhamento de 180 dias pós-exposição recomendado pelo protocolo do Ministério da Saúde.

Aferido em pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o dado leva em conta os registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) de 2007 a 2014.

O abandono foi um dos temas abordados no debate Segurança do Trabalhador de Saúde, realizado pela Folha e a BD, empresa que produz dispositivos médicos.

Considerados um problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde, os acidentes de trabalho com exposição a fluidos biológicos podem transmitir mais de 20 patógenos diferentes, alguns deles causadores de doenças infecciosas como hepatites e HIV.

Entre 2010 e 2015, o Ministério da Saúde registrou 276,6 mil desses acidentes. Enfermeiros, médicos, técnicos e auxiliares de enfermagem representaram 65% dos casos de 2014, segundo o Ministério da Previdência Social.


Saúde sem saúde
Pelo protocolo, o profissional deve passar por acompanhamento clínico-laboratorial, com exames periódicos e consultas médicas, mas nem sempre isso ocorre.

“Dessa vez estou no acompanhamento porque me acidentei com um paciente HIV positivo, mas das outras nem notifiquei. É muito trabalhoso”, conta Bruna, 26, residente em cirurgia plástica, que preferiu omitir o sobrenome.

Em agosto, ela feriu-se com agulha ao final de um procedimento cirúrgico e soube então que o paciente era portador do vírus. A residente tomou antirretrovirais por 30 dias, mas diz não ter tempo de ir às consultas e tem feito os exames por conta própria.

Foi o quarto acidente com perfurocortante de Bruna neste ano. Ela afirma que tanto as ocorrências como o comportamento são comuns: é costume que os próprios médicos peçam exames para descobrir se o paciente é portador de alguma doença.

O acompanhamento por conta própria, no entanto, não garante segurança. “Há a janela imunológica. Pode ser que na hora o resultado seja negativo, mas dali a 30 ou 180 dias a doença se manifeste”, disse Fernanda Miranda, autora do estudo da UFPR e enfermeira no Hospital do Trabalhador, unidade de referência para acidentes de trabalho com fluidos biológicos.

Desde que começaram as notificações, em 1996, até 2015, o Sinan registrou 16 casos de contaminação por HIV entre profissionais de saúde no Brasil. De 2007, quando se tornaram obrigatórias, a 2015, foram 425 para hepatite B e 699 para hepatite C.

Fernanda Miranda destaca que, sem acompanhamento, o profissional não pode provar o acidente de trabalho nem garantir direitos previdenciários, como ajuda de custos para tratamento de saúde e auxílio do INSS.

A subnotificação é outra consequência negativa: enquanto o Brasil tem média diária de 98 acidentes por material biológico, nos Estados Unidos ela chega a 1.000. “É preciso mostrar a realidade dos acidentes para obter mais investimentos em sistema de segurança para a saúde”, afirmou a enfermeira.